quarta-feira, fevereiro 04, 2009

O Comandante das Aguas Turvas (I e II)


- Há, ou devia haver, sempre (!) um Vasco da Gama nas nossas vidas…
- Como? Hoje destes para anedotas?
- O pior é que o meu, precisa ainda ser descoberto por mim… E digo, por mim, porque tu bem que o podes ter descoberto por ti… aliás como já mo dissestes bastas vezes…
- O que dizes querido?
- Não acredito… Quarenta e dois anos a viver comigo mesmo… e nem Índias nem Américas para mim.
- O que se passa contigo, Amílcar? Falas, falas… e não comunicas. Que história é essa?
- Eu só tenho um Porto conhecido e seguro.
- Sonhastes querido?
- Porto seguro… Ahn?
- Ahn! Eureka, parece que acordastes agora. Amílcar Eugénio Lima…
- Hum. Acordei agora? Guida, não brinques comigo. Estavas a falar comigo? O que foi que dissestes? Desculpa-me…
- Há que tempos te estou a falar, e não me respondes…
- Quem? Eu? Comigo?
- Claro! Alô! Estás a ver mais alguém aqui em casa? O nosso Eugénio… esse, já só nos enche a casa nas férias… Ah Amílcar, que saudades do nosso menino…
- Ah não! Outra vez, não!
- Todas as vezes. Todas as vezes…
- Margarida! Margarida querida, de novo?
- Novo? Não há nada de novo. A não ser este vazio deixado pelo nosso menino ausente…
- Ah! … Eu preciso. É uma necessidade. Mudar de cenário. Mudar de corpo. Co-habitar… apoderar… existir… descobrir… encontrar-me…

Eu que tenho a pretensão de o conhecer, por pensar o ter criado, noto que ele se vai esvaindo para a minha pena…para viver para a realidade que o circunda. A esposa, o quarto, os móveis, tudo à volta, vai perdendo cor e brilho, lentamente, até desaparecer para o Amílcar. Olhos vítreos… Aqui, mais uma vez reconheço que, apesar do meu convencimento, não o controlo. Tem vida própria. E ficou já provado, deixando-me com o queixo caído, as mãos trementes… E alguns dias estéreis, sem poder escrever uma letra. Continuo a pensar nesse episódio que me aconteceu, e cada vez mais entendo menos. Mas isto ‘são contas para outro rosário’. Tenho que me concentrar no agora. No que está mais uma vez a acontecer… sem o escritor… Observo o Amílcar: olhos vítreos… Poderia estar no cume de Tôpe de Coroa, camisa dançando ao vento, o infinito a monopolizar-lhe a vista, a mente.
- É uma necessidade: preciso encontrar os meus outros mim… Sei que existem. Sinto que existem… Ao longo dos anos, há um pensar (sonhando) que mais parece um sonho sem fim, que se me repete!Eu existo porque senão não estaria pr'aqui a pensar... e dos biliões de habitantes deste planeta azul... porque será que só estou com este Eu -um Eu aqui destas ilhas perdidas no meio do Atlântico - e não com n outros eus possíveis por este planeta dentro...Sem falar, sem nome, sem história, origem ou cor... sigo pensando, sonhando... mas continuo sempre este mesmo Eu. Um simples cabo-verdiano, anónimo na vida do dia-a-dia do sobreviver constante, por um mundo melhor, a começar por estas ilhas afortunadas... E porquê este quarto, esta casa que de tão familiar… me é estranho… Fui eu que comprei, ou fiz esta casa? E é sempre assim… dias iguais… a mesma mulher… a mesma terra castanha no ecrã da minha janela…E acordo do pensar, acordo do sonho, e continuo a perguntar porque não sou a alma/espírito de um outro ser qualquer desta Vida? Devia era haver um Vasco da Gama nas nossas vidas… E ainda hei-de descobrir o meu. Asseguro que eles – os meus outros mim - estiveram sempre presentes desde o momento zero da minha missão na terra. Hum, cá estou eu, de novo, com esta mania de ‘missão’… não sei qual de nós… ou deles, tem essa filosofia como esteio de vida… missão… que missão?
O ruído do bater da porta soa a explosão ou ao deflagrar de um tiro. Corta o navegar do ‘comandante d’aguas turvas’, como ele próprio se auto-intitula. Confesso que também nisso, não tive um único dedo. Prometo pô-lo a explicar-se sobre esse episódio. Amílcar volta a se deixar possuir…fica por momentos petrificado. Não se percebe que esse ser é vivo. Deve respirar d’outra forma qualquer. E sei isso porque não é a primeira vez que o vejo nesse estado. Petrificado não aparece aqui por acaso. É o que melhor define o que vejo: não respira, não meche, não estremece, não treme, não esboça o mais leve movimento. Parece que o tempo pára: Olhos vidrados, sem expressão nenhuma. Da primeira vez, saí a correr à procura de quem evitasse a morte eminente do meu personagem, de caneta em punho, pois a situação o impunha. Sentia a urgência em agir de imediato. Cada minuto poderia ser o último. Não o queria perder, ficava sem personagem e sem história. Nas imediações da casa dele, só pardais, algumas acácias, e uma estrada calcetada por gente que tem jeito, tal a arte e beleza das pedras trabalhadas por escultor de mão afinada. E também, ao fundo, a imponência do Monte que, de verde, só tem o nome. Verde, aliás que parece ser uma espécie de ‘frustração colectiva’ por aquelas ilhas perdidas no meio do Atlântico.

4 comentários:

João Branco disse...

Muito kool, Fonseca, não te sabia ficcionista! Manias de escritor, também?! Abraço!

José Eduardo Fonseca Soares disse...

Uma 'mania' que já deve ter 'barbas bem brancas'... mas que não passa disso mesmo: uma mania que tem sempre desaguado numa 'compilação do cesto'... Hahaha

João Branco disse...

Estás como um certo personagem que eu cá sei.... hahahaha

Será que precisas que te encerrem nalguma mansão de Byron?!

José Eduardo Fonseca Soares disse...

Mas sem 'almas errantes'... e muito menos 'satânicas'! (hahaha)