quarta-feira, agosto 05, 2009

Até sempre, Biús!


Como se explica que um amante da Vida… um bon-vivantse tenha suicidado? Porque disso se trata! Biús, nos últimos anos da sua vida, não obstante os constantes sinais contrários à continuação da ingestão de álcool, manteve-se fiel à bebida. Gritou e berrou, e chateava-se com os amigos que tinham a ousadia de o chamar a capítulo no que diz respeito ao grogue… Sim, ao grogue nosso de cada dia que, com as mãos trementes, insistia em manter como amigo primeiro. Sinais após sinais, uma saúde cada vez mais degradada… a insistência firme no continuar a beber… a contrastar com um corpo cada vez mais fraco, e mãos cada vez menos firmes. Por isso, a certeza de que se tratou de suicídio. Suicídio premeditado e executado até ao atingir do objectivo
Fica a pergunta: como se explica que um amante da Vida… um bom-vivant… um homem cheio de humor e de alegria de vida… se tenha suicidado?
Autor, compositor, intérprete e animador de uma música de veia bem humorada, ritmada, de qualidade, contagiante, onde o convívio e a inter-actividade reinavam… são a mais-valia desse homem-menino eterno que, hoje, nos deixou.
Biús começa a brilhar ainda de tenra idade, n'Os Gaiatos, depois Seis Jovens Unidos, e depois na emigração nos states no Jamm Band... e nos últimos anos com base de novo no Mindelo, a reinar nas noites de música ao vivo por tudo quanto é palco... com uma actuação sempre contagiante, atingindo a todos: desde os mais jovens até aos ouvintes de terceira idade... Um Artista marcante no firmamento da nossa música!
Que a terra lhe seja leve!
Que continue a brilhar na consciência colectiva creoula!
Que continue a cantar e encantar… mesmo que noutra dimensão!
Até sempre, Biús!

7 comentários:

Anônimo disse...

Prestada a devida e merecida homenagem ao grande Biús passemos agora a outras coisas que por serem também sérias têm de ser analisadas.

Biús era um dependente do alcool; nada de anormal, (ou nao é bem assim?!) pois era um adulto, senhor e dono da sua liberdade. Mas a cultura do alcool em CVerde é uma tragédia e é largamente praticada no meio artistico-musical.

Todos sabemos que tradicionalmente temos grandes musicos que cultivam o alcool, bebendo grogue, whisky ou cervejas em grandes doses cavalares. E' chique e macho, dizer-se no mundo musical e nocturno que a malta bebeu duas caixas de cerveja e três garrafas de whisky na parodia tal!

Alias esta cultura de bebida alcoolica é quase geral na vida nocturna crioula, nao atingindo apenas musicos mas jovens, homens vingados e mulheres também que saiem à noite para uma parodia.

Esta questao tem de ser debatida na sociedade pois é um assunto de saúde publica. E chegamos assim à questao da saude e à morte de Biús.

Como é que se explica que este grande artista tenha estado ha varios dias internado no hospital de Soncente sem que se tenha tomado as devidas providiências tendo em conta que a equipa médica por uma razao qualquer que possa ter ligaçao com competências profissionais ou falta de condiçoes técnicas, para evacuar Biús para o exterior? Portugal ou os Estados unidos, países que têm mais condiçoes tecnicas e profissionais do que CVerde por exemplo?

E' que tenho lido aqui e ali que Biús tinha sido internado por uma questao de diabetes. Mas conhecendo a sua tendência para o alcool, como é evidente que esse factor pesou igualmente na balança.

Impoe-se portanto um inquérito junto do Hospital para se saber o que se passou, até porque aqui ha tempos outro jovem musico Netaniel grande talento do Fogo, morreu também depois de ter estado internado ele também no hospital mas da Praia.

Ha muita gente que tem de fazer o seu trabalho de casa, nomeadamente este jornal e a imprensa duma maneira geral. Ha que investigar e informar cabalmente a opiniao publica.

Estes dramas nao podem continuar assim num país que tem a mania de se gabar que é o maior de Africa e que se compara atrevidamente com o Japao e a Suíça.

Eu tinha que dar este murro na mesa em memoria do grande musico que era Biús e que por uma razao que so a ele diz respeito abusou desalmadamente do grogue e do whisky. Como musico ele era e é um modelo a seguir, mas como individuo, como homem de parodia e whisky, nao pode de maneira nenhuma ser copiado por nenhum jovem.

Esta tragédia do alcool tem de acabar. Esta bazófia de quem bebe mais garrafas de whisky para provar a nao sei quem que se é mais homem tem de acabar nesta terra. A cultura de bebidas alcoolicas em CVerde existe mesmo entre gente doutora, letrada e engenheira, porque sempre se nos incutiu na mente que aquele que tem garrafa de whiski na discoteca tal, é que é um verdadeiro macho e que pode apanhar as gajas boazonas todas!

Que grande aldrabice! Que grande asneira! Paz à alma de Biús e que Deus tome mais juízo na cabeça para nao estar sempre a levar-nos para o seu seio os melhores.

Underdôglas

Maria José Macedo disse...

Num estudo recente sobre os gastos das familias cabo-verdianas constatou-se que em Cabo Verde a grande maioria gasta mais com bebidas alcóolicas do que com o investimento na educação dos seus filhos...
É assim que em alguns bares têm lá contas penduradas de pais que tomam pinga fiado para virem pagar depois no fim de mês.
Esta realidade é preocupante, tive um primo que veio da ilha do Fogo e acabou por morrer cá cidade da Praia porque todos os seus "pseudo-amigos" ofereciam-lhe justamente o grogue mesmo sabendo das suas frágeis condições de saúde.
Depois dele ter morrido os seus "pseudo-amigos" dissseram : "Ah nha guenti" !!!

Anônimo disse...

Encontrei este texto algures e lembrei-me do debate sobre a história da Rádio que teve no kriolradio e que tem de ser relido passado o calor do momento:

Na Antiguidade greco-romana vários eram os suportes de escrita. Das tábuas cobertas de cera ao papiro, da pele ao pergaminho. Diz-se inclusivamente que Petrarca teria usado o seu próprio traje de couro para anotar algumas ideias...


Num período em que precisamente a escrita se completa, é interessante verificar que as formas embrionárias então emergentes que poderemos associar ao 'jornalismo' - tal como veio a ser conhecido na idade clássica -, existiram sobre suportes tão simples como os citados.
Dos gregos sabe-se que tinham um género de almanaques, como encontramos nos finais do século XV em França, com informação diversa sobre astrologia, curiosidades, etc. Chamavam-se então "efemérides", mas não eram mais do que «jornais» históricos, análogos aos anais dos pontífices romanos.


Roma vem a conhecer, com o advento da República, em 509, as Acta Publica, que aparecem depois das "tábuas brancas" - os Album -, afixadas nas paredes do palácio do Pontífice e depois também nas principais zonas da cidade onde eram, por exemplo, referenciadas as sessões do Senado.
No final da República, mas ainda com Júlio César, aparecem as Acta Diurna, verdadeiras folhas de notícias e ecos da vida romana, recopiadas depois por oficinas especializadas e divulgadas principalmente no seio das camadas mais privilegiadas. Os actuarii, que redigiam e reproduziam essas informações, da necrologia aos incêndios, das execuções à sexualidade, eram, por assim dizer, autênticos "noticiaristas".
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Acho que no debate e recuando no tempo histórico da humanidade adaptado ao momento caboverdiano não teve razÃO o Tchá. E este texto está aqui para o provar.

Fonseca Soares disse...

Underdoglas e Maria José, inteiramente de acordo com essa necessidade de encarar de frente esse nosso problema com o àlcool, pois não podemos mais ficar fingir que não existe... ou que não é tão importante.
Anónimo, até eu estou de acordo com este texto que tráz... isso só para dizer que certas afirmações só servem quando contextualizadas... não?

Álvaro Ludgero Andrade disse...

Meu caro primo, obrigado por um texto com elevada qualidade (como sempre) mas que vem de alguém que tem dado exemplo como pessoa pública. É hora de levantarmos a bandeira do saber viver, porque um bon-vivant é aquele que sabe apreciar a vida e não destrui-la. Que os artistas te ouçam e te sigam.
Abração

djoyamado disse...

Gostei muito deste post!!! VALEU!!!

Ana Correia disse...

Adoreia matéria,, parabens,,